Guedes humilha quem tem fome, diz diretor da ONG criada por Betinho
19 de Junho de 2021 - PT
“Quem tem fome tem pressa”, dizia o sociólogo Herbert de Souza, irmão do Henfil e ícone da luta contra a fome no país
Betinho morreu em 1997, quatro anos após fundar a Ação da Cidadania, mas a ONG continuou seu trabalho de defesa da segurança alimentar dos brasileiros, tendo distribuído já 150 milhões de refeições para 20 milhões de brasileiros. Coube ao diretor-executivo da entidade, Rodrigo Afonso, responder, com indignação, a proposta escatológica feita na quinta-feira (17) pelo ministro-banqueiro Paulo Guedes, que sugeriu dar a comida que sobra aos mais pobres.
“Betinho dizia que, quando pessoas passam fome, todos os outros direitos lhes foram negados”, disse Afonso à Folha de São Paulo. “Então, depois de todos os direitos negados, dar um alimento vencido, ração humana, é uma humilhação. É inaceitável”, resumiu Afonso, para quem “o governo não compreende o que é a fome”.
A mais nova do chefe da Economia do desgoverno Bolsonaro foi pronunciada no 1º Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento, promovido pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS). “O prato de um ‘classe média europeu’ é pequeno, no nosso, há uma sobra enorme. Precisamos pensar como utilizar esse excesso no dia a dia. Toda aquela alimentação que não for utilizada durante aquele dia no restaurante, dá pra alimentar pessoas fragilizadas, mendigos, pessoas desamparadas. É muito melhor que deixar estragar”, enunciou o “Chicago boy”, apoiado pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que completou a receita neoliberal defendendo a distribuição de alimentos fora da validade.
Afonso afirma que a ideia, inaceitável, é coisa de quem “nunca sentou com uma família para saber o que é fome”. “Infelizmente é a visão elitista desse governo, que não compreende o povo e, obviamente, não compreende o que é a fome”, prossegue, lembrando gestos como a sugestão de João Doria (PSDB), de distribuir ração humana nas escolas, e a afirmação de Osmar Terra, à época ministro da Cidadania, de que não haveria fome endêmica no país. Afirmação repetida por Jair Bolsonaro.
“Somos a favor de legislações que tratam de doações de alimentos, desde que esse alimento esteja no prazo de validade, saudável”, ressalta o diretor da Ação da Cidadania. No ano passado, a entidade distribuiu 32 milhões de pratos de comida e foi finalista no Prêmio Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19.
Também no ano passado, mais de 50% dos brasileiros não tiveram a garantia de comer diariamente, precisaram reduzir qualidade e quantidade do consumo ou simplesmente dormiram de barriga vazia. Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan), 19 milhões de pessoas passaram fome e 116 milhões viveram em insegurança alimentar em 2020. Neste ano, a situação deve piorar.
Falta de planejamento
O quadro, diz Afonso, é consequência direta da destruição das políticas sociais de combate à fome por Bolsonaro e Guedes. “O preço dos alimentos aumentou pela falta de planejamento, o governo é a causa da fome no Brasil”, acusa o dirigente, lembrando a extinção do Conselho de Segurança Alimentar (Consea) e o desmantelamento do programa de estoques reguladores de alimentos.
Ocorreram reduções no incentivo ao pequeno produtor – de R$ 1,3 bilhão em 2014 para R$ 151 milhões em 2020—e no programa de cisternas na zona rural –de R$ 643 milhões em 2014 para R$ 74 milhões em 2020. Mas os investimentos na agricultura para exportação explodiram.
“Em vinte anos, a área plantada de arroz perdeu 50% do espaço de produção em hectares, junto com o feijão, que perdeu 76%. Já a soja e o milho tiveram expansão de 165% e 143%, respectivamente”, enumera Afonso. “Ao longo dos anos, não se pensou em segurança alimentar, não se olhou para a produção de alimentos. As pessoas comem arroz e feijão, não soja e milho.”
Segundo Afonso, o direito humano à alimentação está expresso no artigo 6º da Constituição Federal, e o Estado é o responsável por garanti-lo. “Não se trata de entregar alimento para todo cidadão, é gerar riqueza, renda e lidar com a cadeia do alimento. Mas, em momentos de emergência, o governo é obrigado a atuar para salvar famílias.”
“A fome não se resolve com assistência social. Não é distribuindo cesta, doando prato. O que resolve é política pública, apoio à agricultura familiar, transferência de renda e geração de emprego”, conclui o responsável por manter vivo o legado daquele que uma vez disse: “O Brasil tem fome de ética e passa fome em consequência da falta de ética na política”.
Foto reprodução PT
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