Fundação Dalí quer desmascarar "Casa de Papel"
24 de Janeiro de 2019 - El País
Estamos a “tratar de regularizar os usos do direito de imagem de Salvador Dali”
Salvador Dalí e Gala sempre tiveram fama de gostar muito de dinheiro, mas não a ponto de considerarem assaltar um banco. O mestre do surrealismo, que morreu há 30 anos, virou um inusitado protagonista do crime, ou pelo menos no falso crime. As máscara usadas na muito popular e aclamada série espanhola que o Netflix recuperou, "A casa de papel", usam a famosa imagem de Dali e dos seus bigodes pontiagudos.
Na série, os criminosos pretendem roubar 2,4 mil milhões de euros do Fábrica acional de Moeda de Espanha e, durante os episódios, usam uma máscara que remete para uma representação da cara do artista espanhol.
A máscara virou símbolo da série reconhecido mundialmente, mas a Fundação Gala-Salvador Dalí, criada pelo pintor em 1983, com o objetivo de fomentar, proteger, e defender o seu legado está preocupada com a associação ao "show" disponibilizado pelo Netflix.
"Estamos a tratar de regularizar os usos do direito de imagem de Salvador Dali", informaram fontes da fundação ao "El País".
A série estrou em Espanha em 2017, mas só quando foi adquirida pelo Netflix, que exerceu a sua influência para trabalhar os episódios - mudou-lhes a duração, aumentando o número de capítulos - e depois distribui-os por todo o Mundo.
O sucesso foi tal, que é a série de TV de língua não inglesa, mais bem sucedida da plataforma de streaming. Os fãs aguardam em 2019 pela nova temporada, que está a ser rodada desde novembro de 2018 e em que a máscara icónica provavelmente voltará a ser usada.
A Fundação Dali não está no entanto, satisfeita, com o mega sucesso do disfarce, que em 208 foi um sucesso de vendas para festas de carnaval ou Halloween. Pior do que isso, há casos de assaltantes que as usaram para roubar bancos, em Santiago do Chile ou em Buenos Aires, imitando os personagens da televisão.
Ora, se cabe à fundação gerir os direitos imateriais derivados da obra e da pessoa Salvador Dalí, o problema não é "económico", sublinha a instituição. "Qualquer pessoa que deseje exercitar ou explorar algum destes direitos tem de obter autorização prévia da fundação. E se a fundação tem conhecimento que estes direitos foram violados, tenta regularizar os usos não autorizados", escreve o "El Pais". Ainda assim, agora que a série está nas mãos da Netflix, a fundação reconhece que o assunto "se torna mais complexo".
A produtora inicial da série, a Vancouver Media, coadjuvada por outra empresa, a Atrasmedia, diz que os disfarces dos personagens, um macacão vermelho e a máscara agora polémica, foram uma ideia que a direção da série achou interessante. Avançaram com ela e, asseguram fontes da empresa, "a máscara é um desenho que faz lembrar Salvador Dalí, mas um bigode assim qualquer um pode usá-lo, mesmo que tenha sido Dalí a popularizá-lo".
Chegaram a considerar usar um disfarce que fizesse lembrar "D. Quixote" mas optaram por uma máscara que fizesse lembrar Dalí. Pediram a um artesão que fizesse o modelo da caricatura para a série e avaliaram se era necessário pedir autorização. "Mas o nosso departamento jurídico decidiu que não era necessário, por se tratar de uma caricatura", explicaram ao jornal espanhol.
A mesma opinião tem o Netflix, que reitera que a máscara se vai manter e que "a decisão de utilizar Dalí foi dos criadores", com apoio do gabinete jurídico. E a empresa, via fontes citadas pelo "El País", sublinha ainda que a série "fez com que o pintor seja conhecido em pontos do planeta que doutra maneira não o conheceriam. É o melhor marketing para Dalí em todo o Mundo", dizem.
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