Saúde

Cientistas desenvolvem lente inteligente capaz de detectar sinais associados ao estresse nas lágrimas

29 de Setembro de 2026 - Redação Pernambués agora
[Cientistas desenvolvem lente inteligente capaz de detectar sinais associados ao estresse nas lágrimas]

Foto [Aprimorada com uso de I.A]: Reprodução / Gemini

Pesquisadores do Instituto Terasaki de Inovação Biomédica, nos Estados Unidos, desenvolveram uma lente de contato inteligente capaz de identificar mudanças fisiológicas relacionadas ao estresse por meio da análise das lágrimas.
Flexível e reutilizável, a tecnologia possui um sensor que mede os níveis de serotonina presentes no filme lacrimal. A substância participa de diferentes processos do organismo e, embora seja conhecida principalmente por sua relação com a regulação do humor, também pode atuar como um indicador de alterações fisiológicas.
A proposta dos cientistas é transformar a lente em uma espécie de laboratório em miniatura, capaz de coletar informações bioquímicas de maneira pouco invasiva e sem a necessidade de agulhas ou exames convencionais de sangue.
“As lágrimas carregam mais informações sobre o nosso corpo do que a maioria das pessoas imagina”, afirmou ao jornal O Globo Minwoo Kim, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Terasaki.
Segundo ele, o dispositivo permite acessar essas informações a partir de um objeto que já faz parte da rotina de muitas pessoas.
Sensor transforma informações em sinais elétricos
Para criar o equipamento, os pesquisadores incorporaram um sensor fino e flexível a uma lente gelatinosa convencional. O sistema identifica a serotonina presente no líquido lacrimal e converte essa informação em um sinal elétrico, posteriormente transformado em uma medida de concentração.
O dispositivo utiliza ferroceno, composto que reage com a serotonina e gera uma pequena resposta elétrica. Conforme o estudo publicado na revista científica Science Translational Medicine, o sensor conseguiu detectar concentrações de até 72 picomolares.
A sensibilidade alcançada foi aproximadamente 200 vezes superior à necessária para detectar os níveis normalmente encontrados nas lágrimas humanas. Isso permite, segundo os pesquisadores, acompanhar mudanças relativamente pequenas na concentração da substância.
Testes identificaram alterações durante situações de estresse
Os primeiros experimentos foram realizados em camundongos submetidos a condições de estresse crônico. Durante os testes, os cientistas observaram redução da serotonina nas lágrimas e aumento do cortisol, hormônio ligado à resposta ao estresse, tanto no sangue quanto no líquido lacrimal.
Posteriormente, a tecnologia foi avaliada em uma etapa inicial com dez voluntários. Amostras de lágrimas foram recolhidas durante um teste padronizado de estresse.
Os resultados apresentaram um comportamento semelhante ao identificado nos animais. A concentração de serotonina diminuiu durante a atividade estressante e, depois, retornou aos níveis observados antes do teste.
O grupo também analisou a capacidade de reutilização da lente. Conforme os pesquisadores, o sensor manteve a precisão das medições ao longo de até 400 utilizações distribuídas por vários dias.
Tecnologia ainda depende de novos estudos
O pesquisador principal Yangzhi Zhu explicou que o olho pode funcionar como uma porta de acesso a informações não apenas da região ocular, mas também de processos que acontecem em outras partes do organismo.
A serotonina foi escolhida para demonstrar a viabilidade do conceito. No futuro, a equipe pretende ampliar a tecnologia para identificar outros biomarcadores e acompanhar diferentes aspectos da saúde.
Uma das próximas etapas será transformar o protótipo, atualmente conectado a equipamentos de laboratório, em um dispositivo vestível completamente integrado. Os cientistas pretendem incorporar componentes sem fio para permitir a transmissão dos dados em tempo real.
Antes de uma eventual utilização clínica, serão necessários estudos com grupos maiores e mais diversos. Os pesquisadores ainda precisam avaliar a segurança do uso contínuo, o conforto, a estabilidade do sensor, a precisão em condições cotidianas e a possibilidade de produção em larga escala.
A tecnologia não substitui avaliações médicas ou psicológicas e ainda se encontra em fase experimental. O estudo representa um avanço inicial da bioeletrônica ocular, área que combina sensores bioquímicos, eletrônica flexível e dispositivos vestíveis.

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