Após revolta nas redes sociais por vídeo racista contra uma mulher do candomblé, turistas pedem ‘desculpas’ e dizem ser “brincadeira entre amigos”
16 de Novembro de 2021 - Redação Pernambués agora
O feriadão da Proclamação da República foi cenário para mais caso de racismo e intolerância religiosa sofrida pelo povo preto na Bahia
Dois turistas, do Rio de Janeiro, filmaram uma mulher, Eliane de Jesus, vestida com roupas do candomblé, no Pelourinho, em Salvador. Durante as filmagens eles a chamam de “marmoteira”, “preguiçosa” e supostamente ladra.
“É aquela baiana ali, oh, ela falou que vai me dar axé, ela tem cara de macumbeira?”, diz Ludwick Rego. “Ela é o que, irmã?”, pergunta Rômulo Souza. “Marmoteira”, responde Ludwick. "E preguiçosa". “Ela vai roubar o seu axé, isso sim”, disse Rômulo aos risos. Nesse momento, Ludwick continua: “Ela vai roubar o meu colar pra ela”.
As imagens publicadas no último sábado (13), que para eles pareciam uma grande comédia, causaram revolta nas redes sociais, na última segunda-feira (15). Após o vídeo viralizado, Eliane foi procurada pela produção da TV Bahia.
Ela já trabalha há mais de dez anos no Centro Histórico e ficou indignada com a repercussão negativa de sua imagem.
"Meu nome é Eliane e eu estou aqui para falar sobre um vídeo que está rolando aí, sobre a minha imagem, de duas pessoas insignificantes. Ele bateu foto minha e eu não vi. Não fui até ele, eu nem sei quem é ele, eu vi depois que ficou rolando nas redes sociais e na internet...as pessoas falando sobre isso", disse.
"E eu estou muito indignada, estou muito ferida com isso, porque isso é intolerância religiosa. Eu trabalho no Pelourinho há mais de dez anos, benzo, e sou suspensa como Ekede [cargo no candomblé] em uma casa [terreiro]. Então não é certo ele me chegar e fazer isso com minha imagem. Isso é uma intolerância contra a minha religião", afirma.
Para a psicanalista Elisama Sena, em um artigo à revista Crescer, aponta que a ‘brincadeira’ é dolorosa e precisa ser combatida. “Enquanto para quem diz que foi ‘só’ uma brincadeira, ‘só’ a opinião, ‘só’ um comentário, para nós é uma sequência infinita de situações doloridas que se repetem em looping”, revela.
Os turistas Ludwick e Rômulo se manifestaram após a repercussão do vídeo nas redes sociais.
“A gente veio aqui nesse vídeo fazer uma retratação, pedir desculpas ao povo da Bahia, ao povo do Pelourinho, ao povo do axé, que em momento algum a gente quis ofender a cultura, né, inclusive eu faço parte do axé, e nós ali estávamos numa brincadeira de uma pessoa que estava vendendo axé, que a gente sabe que axé não se vende. Quem é realmente da religião sabe que axé não se vende. Você abençoa uma pessoa e ela dá aquilo ali que ela pode", diz Ludwick.
"Foi uma brincadeira entre amigos que a gente postou, foi uma infelicidade, mas em momento algum a gente quis denegrir a imagem da Bahia, quis denegrir a imagem do Pelourinho, quis denegrir a imagem dos baianos, e falar também que a pessoa que nós falamos no vídeo não é uma vendedora de acarajé. Em momento algum nós menosprezamos uma trabalhadora ali, uma vendedora de acarajé, nós fizemos essa brincadeira com uma pessoa que estava tentando vender axé, estava me perturbando para querer benzer minhas guias", contou.
O amigo dele, Rômulo Souza, também se defendeu sobre as acusações que têm sido feitas nas redes sociais, segundo ele.
“Eu também peço desculpas porque fui eu que iniciei o vídeo, como Ludwick Rego falou, era uma brincadeira entre a gente e esse vídeo saiu da nossa rede social e vazou. E assim, não tem necessidade dessas ameaças horrorosas, dessas falas horrorosas, e todas as falas de Ludwick eu faço as minhas que eu peço desculpas ao povo da Bahia que eu amo, que eu tenho milhões de amigos, a gente estava indo lá pela terceira vez e vamos voltar mais vezes, ao povo da cultura, ao povo da religião, desculpa, se alguém se sentiu ofendido, desculpa”, disse.
Após a repercussão, os dois turistas fecharam os respectivos perfis das redes sociais.
A Associação Nacional das Baianas de Acarajé repudiaram o vídeo feito pelos turistas e alertaram sobre a importância em não disseminar o racismo e o preconceito. Veja abaixo a nota na íntegra:
"Nós, da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, alertamos a todo instante sobre a importância em NÃO disseminar o racismo, preconceito e forma perversa de dar continuidade aos maus-tratos que só geram dores e tristezas.
Por essa razão, viemos em público acolher essa Senhora, que não é Baiana de Acarajé, mas ganha seu sustento no ponto turístico de Salvador com seu dom de cura com as folhas e boas energias, acolhendo baianos e turistas que solicitam seu serviço. Por tanto Senhor @Ludivickrego e toda sua cúpula que compactua em continuar as chibatadas em nosso povo de negro, de axé e que ganha o sustento da sua família com trabalho digno, merece nosso total respeito e empatia, não vamos tolerar essa sua afirmação tão absurda e cheia de deboche.
O Novembro Negro existe para que pessoas como você se eduque e busque dissolver o racismo estrutural para que o mesmo não seja reproduzido.
Foto: Reprodução
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