Saúde

Quase metade das famílias brasileiras não autoriza doação de órgãos, aponta levantamento

09 de Setembro de 2026 - Redação Pernambués agora
[Quase metade das famílias brasileiras não autoriza doação de órgãos, aponta levantamento]

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

A taxa média de recusa familiar para doação de órgãos no Brasil está em aproximadamente 45%. A decisão acontece após a confirmação da morte encefálica de um possível doador e pode impedir que os órgãos sejam destinados a pacientes que aguardam por transplantes.
O índice apresenta variações entre estados e até entre hospitais de uma mesma cidade. Segundo especialistas, essas diferenças mostram que a negativa não está relacionada somente às opiniões ou crenças das famílias, mas também à forma como o processo é conduzido pelas instituições de saúde.
O presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), Cristiano Franke, explica que muitas pessoas comunicam em vida o desejo de doar seus órgãos e que diversas famílias têm a intenção de respeitar essa vontade.
Apesar disso, falhas no acolhimento e na comunicação dentro dos hospitais públicos e privados podem dificultar a autorização.
Em alguns casos, os familiares não recebem todas as informações necessárias ou são abordados em um momento e local inadequados. O uso de termos excessivamente técnicos também pode comprometer a compreensão e aumentar a insegurança.
Equipes despreparadas para conversas delicadas podem transmitir uma imagem de frieza ou fazer com que a abordagem pareça focada somente na obtenção dos órgãos.
Mais de 2,5 mil profissionais foram capacitados
Para melhorar o atendimento às famílias, a AMIB e o Ministério da Saúde capacitaram 2.534 profissionais entre setembro de 2025 e agosto de 2026.
O resultado superou em 25% a meta inicial do projeto, que previa a formação de 2 mil participantes.
Os cursos buscam ampliar o número de profissionais preparados para atuar nas etapas de doação e transplante, especialmente na comunicação com os familiares.
A formação também contempla a identificação de possíveis doadores, a confirmação da morte encefálica e os cuidados necessários para manter o organismo do paciente em condições adequadas até a retirada dos órgãos.
Entre os profissionais capacitados estão 933 médicos. Desse total, 473 receberam treinamento específico para a determinação de morte encefálica.
Também participaram enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, administradores, farmacêuticos, odontólogos, biólogos, um nutricionista e um pedagogo.
Até agosto, foram realizados 73 cursos, organizados em 23 módulos e distribuídos por 25 estados. Outros oito treinamentos estão previstos até o encerramento do projeto, incluindo atividades em Fortaleza e Florianópolis.
Dúvidas e inseguranças influenciam decisão
Entre os principais motivos para a recusa estão a dificuldade de compreender ou aceitar o diagnóstico de morte encefálica, as crenças religiosas e o desconhecimento sobre a vontade manifestada pelo familiar em vida.
Também existem preocupações com uma possível alteração na aparência do corpo, desconfiança em relação ao processo e a percepção de que a equipe está mais interessada nos órgãos do que no paciente.
Especialistas ressaltam que a retirada é realizada com critérios técnicos e que o corpo é reconstruído para não apresentar deformidades visíveis durante o velório.
Essas informações precisam ser explicadas com calma, clareza e respeito ao momento de luto enfrentado pela família.
Brasil registrou mais de 15 mil potenciais doadores
Dados do Registro Brasileiro de Transplantes, elaborado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, mostram que o país identificou 15.940 potenciais doadores em 2025.
Desse total, 4.335 tornaram-se doadores efetivos. Entre as famílias entrevistadas, 4.200 não autorizaram o procedimento, o equivalente a 45% das consultas realizadas.
A qualificação das equipes, a comunicação adequada e o diálogo prévio das pessoas com seus familiares são apontados como medidas importantes para aumentar o número de doações.

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